Crítica | Upload: a existência que vai além das memórias

A trama de Upload busca por uma espécie de união entre o icônico San Junipero, de Black Mirror, com o sarcasmo de The Good Place. Isso tudo retirando o que essas duas histórias tem de melhor e aplicando um tom mais básico, com menor complexidade filosófica existencial, apelando para uma perspectiva mais voltada para o cômico absurdo.

Com esse início, se você ainda não assistiu a série, deve estar imaginando que ela realmente não vale a pena. Mas não é isso que estranhamento acontece. Em episódios curtos, Upload consegue hipnotizar a audiência, mantendo uma linha narrativa que de tão simples, se torna intrigante.

Protagonizada por Robbie Amell (The Flash) e Andy Allo (Chicago Fire), a série se passa logo e ali em 2033, quando a realidade virtual e a inteligência artificial dominaram a rotina dos seres humanos. Uma tecnologia chamada “upload”, digitaliza e transporta a consciência das pessoas para “pós-vidas” digitais paradisíacas, vendidas por gigantes da telecomunicação.

Upload acompanha Nathan (Amell), um jovem programador que tem seu upload feito após seu corpo sofrer um acidente em um carro comandado por uma inteligência artificial. A partir daí, Nathan percebe que o pós-vida não é algo tão incrível assim.

Dentro desse cenário, somos apresentados à uma série de personagens com muita expressão e potencial para serem desenvolvidos por muitas temporadas. Contudo, ao contrário do que acontece na já citada The Good Place – é impossível não fazer a associação – esses personagens, inclusive os protagonistas, permanecem em uma linha muito superficial, tendo todas as suas ações baseadas em demonstrar as potencialidades tecnológicas ali imaginadas.

O centro da trama está no relacionamento que surge entre Nathan e Nora (Allo), ao mesmo tempo que muita coisa está envolvida no modo como Nathan morreu. Essas duas perspectivas colocam a série em uma confusa – mas que no fim funciona bem – ideia do que estamos assistindo, onde devemos colocar o nosso foco. É importante resolver um mistério ou só estamos observando uma bela história de amor impossível? Upload não deixa isso claro em momento nenhum. Esse fato que por vezes é incômodo, quando analisado, é exatamente o que prende a atenção.

Isso porque Nathan e Nora são personagens superficiais, mas muito bem sustentados em suas superficialidades. Nathan é um cara bonito, malhado e acostumado a conseguir o que quer, e é exatamente isso o que personagem entrega. Mesmo que ele passe por uma mudança em sua personalidade, não há a exigência, inclusive, de que o ator desempenhe um papel incrível, Nathan é raso e a sua maior conclusão durante os dez episódios, é a de que o amor é possível – mesmo que ele tenha decidido isso a partir de um amor impossível.

Já Nora, personagem que merecia ter sido mais aprofundada, é nitidamente o oposto de Nathan. Ela conquista automaticamente com o seu tom de voz e carisma quase inexplicável em uma narrativa que pouco avança. Andy Allo executa praticamente um milagre e gera uma química incrível com o seu parceiro de cena.

Upload é uma criação de Greg Daniels, mesma mente por trás de The Office e Parks and Recreations, um enorme nome da comédia. Mas aqui ele desperdiça uma grande chance de entregar muito mais. Por mais que Upload conquiste por seu cenário e elenco, ao fim fica a sensação de que poderíamos ter tido muito mais de um mundo futurista que se propõe a fazer com que pessoas vivam para sempre, inclusive, com uma pesquisa para possibilitar o download de mentes.

A produção já foi renovada para a segunda temporada e diante do que tivemos ao final da primeira, esperamos por um salto de qualidade no que diz respeito ao desenrolar dos personagens e de suas vidas, assim como um foco maior nessa tecnologia capaz de transplantar mentes e o que isso significa. Comédias podem e devem fazer pensar, como é o caso de The Good Place.

Para além do Upload

A ideia de viver para sempre através do upload da mente humana para a nuvem ou um hard drive não é nova, inúmeras séries, filmes e livros já passaram  por isso. Um exemplo recente, é a série The 100, que contou as mais inusitadas tecnologias na sua narrativa, incluindo essa.

Um dos pontos tocados de maneira muito superficial por Upload é a clássica questão da alma. No momento em que somos capazes de transportar a nossa mente para outras plataformas, o que isso significa no tocante à existência da alma?

A tecnologia não nos proporciona apenas facilidades no dia a dia, ela proporciona também inúmeras viagens sobre aquilo o que somos ou deixamos de ser. Penso, logo existo, dizia Descartes. E se formos capazes de transportar a nossa mente para outras formas de vida, continuamos a existir. Mas a nossa mente deixa realmente de existir se não estiver acoplada a algo?

Um upload é feito a partir de arquivos, memórias, então, pela lógica, eu existo apenas a partir do momento em que começo a produzi-las, e sem memórias, somos todos apenas vasos vazios. É difícil assimilar a ideia de que podemos ser como máquinas, deletáveis.

Apesar de tratar do assunto sem a profundidade devida, Upload ainda tem muito a dizer. Não sabemos e não podemos afirmar, mas existir, ao contrário do que disse Descartes, talvez seja muito mais do que pensar.