Crítica | A Vida e a História de Madam C.J. Walker: a confiança da mulher negra através dos cabelos

“Vamos falar sobre cabelo. O cabelo pode ser a liberdade ou a escravidão. A escolha é sua.”

A série, estrelada por Octavia Spencer, conta a história de Sarah Breedlove, uma mulher negra que tomou para si a missão de criar produtos para cuidar do cabelo e evidenciar a beleza da mulher negra.

Filha de escravos, órfã aos sete anos, casada aos 14 e viúva e com uma filha de dois anos aos 20. Trabalhou quase toda a vida como lavadeira e praticamente sem cuidados, quase perdeu os cabelos. Mas por sorte do destino, uma mulher entra em sua vida, e com um produto inovador, traz de volta a sua confiança em si.

São quatro episódios que apresentam a trajetória da Madame C.J. Walker, uma mulher negra que faleceu em 1919, mas que está presente no livro dos recordes e você provavelmente não conhecia (nós não conhecíamos). E somente por esse fato, a série já merece o seu destaque.

A minissérie é baseada nas memórias de A’Lelia Bindlesrie, bisneta de Sarah, e coloca sobre Octavia Spencer a responsabilidade de viver a primeira mulher a se tornar uma milionária. E Octavia abraça o papel – como sempre – de maneira fantástica. Desde a primeira cena, sentimos a presença brilhante da atriz, dando vida à uma mulher negra que antes dos anos 20 foi vizinha de Rockefeller. Octavia jogou para si e para Sarah os holofotes merecidos.

Com poucos episódios, mesmo para uma minissérie, sentimos que alguns pontos poderiam ter sido melhor apresentados, como por exemplo o seu caminho para torna-se uma milionária, momento que foi reduzido à uma introdução de trinta segundos em um episódio.

Contudo, a trama foca em outras partes muito importantes da vida de Sarah, como relacionamentos familiares e a sua imensa capacidade de resiliência. Sarah não desiste. Mesmo com todas as probabilidades do mundo contra ela, por ser mulher e negra, ela jamais pensa em desistir e nem deixa que nenhum homem ou branco tome as rédeas da situação. O roteiro é impecável ao demonstrar isso.

A produção também chama muita atenção por seu figurino e cenário de época, que se mescla maravilhosamente bem com uma trilha sonora que vai do rap ao R&B. A música é capaz de gerar uma empatia não somente pela personagem vivendo no início do século XX, mas também pela situação das mulheres negras de hoje. Sarah transformou e muito o cenário social da época, mas ainda hoje há quem acredite que produtos de beleza para mulheres negras seja algo desnecessário.

Outro aspecto muito interessante da narrativa, é a capacidade de conseguir tratar o racismo sem precisar, necessariamente, utilizar personagens brancos. O foco está todo na população negra que envolve a família Walker e, partir dessas relações, somos apresentados ao racismo cruel capaz não apenas de diminuir a figura do povo negro, mas também de colocar uns contra os outros.

Existe um legado muito importante deixado por Sarah, são questões que envolvem o racismo, o machismo, gênero e sexualidade. Muito foi deixado de fora ou poderia ter sido mais aprofundado, mas mesmo com toda a sutileza, a série consegue retratar uma das personalidades negras mais importantes da história dos Estados Unidos. Uma mulher que deu, acima de tudo, oportunidade, esperança e confiança à milhares de mulheres negras, uma mulher que foi capaz de enxergar em si o reflexo da força e beleza infinita que existe em todas mulheres. E que 100 anos após a sua morte, vê o seu legado e história reproduzidos nos quatro cantos do planeta.