Crítica | Westworld – 3ª Temporada: questione a sua realidade

Westworld encerrou o seu terceiro ano de forma arrebatadora e apesar de ter problemas com a audiência, mesmo durante uma pandemia, a série continua sendo um importante respiro filosófico existencial na televisão estadunidense.

Quando o segundo ano foi fechado, nós ainda não fazíamos ideia do que estava por vir. A abertura do terceiro ano nos trouxe algo absolutamente diferente, um novo mundo, uma nova narrativa, uma nova perspectiva para os personagens.

Dolores, o vetor de toda essa mudança e primeiro indivíduo de sua “espécie”, é de longe um dos personagens mais marcantes do século. A jovem anfitriã de um parque, ingênua, com uma narrativa irritante de tão simplória e estereotipada, transforma-se ao mesmo tempo em uma heroína e anti-heroína. A gente está sempre no escuro com as suas ações, mas o sentimento de que devemos apoiá-la é certo. Afinal de contas, enquanto bons humanos que somos, a gente sabe que a humanidade falhou e a gente precisa renovar o sistema.

Contudo, após um segundo ano que mexeu com o cérebro do público, em uma linha do tempo complexa, um verdadeiro enigma para a audiência, os produtores pediram por uma trama mais “acessível”. O resultado foi uma temporada ainda acima da média, se comparada a séries do mesmo nível, mas que evidenciou uma simplicidade que não cabe em Westworld.

Durante todo o terceiro ano, acompanhamos Dolores em uma narrativa linear em busca do seu objetivo de transformar o modus operandi da humanidade. Até aí tudo bem. O problema é que essa narrativa em volta do plano acaba por tornar pequenos outros personagens importantíssimos e de grandes narrativas passadas, como Maeve, Bernard e até mesmo Caleb, que mesmo acompanhado de Dolores, soa como um pequeno peão girando sem um sentido.

Esses três personagens só ganham o espaço que lhes é devido nos dois últimos episódios, contudo, nada que resolva o problema. Maeve se torna um personagem pequeno, enquanto Bernard é praticamente nulo. Já Caleb funciona muito bem para ouvir as frases de efeito filosóficas – incríveis por sinal – de Dolores.

Dizendo isso, parece que estamos colocando Dolores como o centro das atenções, mas não foi isso o que aconteceu. Em uma construção linear e palatável, a própria protagonista perde sentido em si mesma, enquanto a produção tenta sustentar-se na ideia do livre arbítrio. Essa mensagem é muito bem trabalhada e a trama alcança muito bem esse objetivo, mas a sensação é de que tudo se perdeu para que isso pudesse ser dito.

No entanto, como já dito, Westworld ainda consegue se manter em um patamar muito acima. Os episódios contam com direção, fotografia e trilha sonora impecáveis. De fato, Westworld é um deleite aos olhos e aos ouvidos, é uma série extremamente bonita em todos os sentidos. O episódio cinco da terceira temporada exemplifica muito bem isso. A consonância entre o roteiro, a direção e a fotografia são magníficos, é impossível desgrudar os olhos da tela.

Portanto, assistir a terceira temporada resultou em um misto de êxtase com desapontamento por ter a certeza de que a série poderia ter alcançado níveis ainda mais incríveis, não fosse pelo olhar dos produtores de simplificar uma narrativa que nasceu brilhante justamente por ser complexa.

Adentrando um pouco mais no enredo dessa temporada, fomos apresentados à uma realidade mais cruel. Se os anfitriões do parque da Delos não tinham o direito de decidir sobre suas vidas, no mundo real os humanos já tinham as suas narrativas escritas a partir do nascimento.

A ideia de termos os nossos destinos traçados pelo universo ou por uma divindade já soa bastante incômoda. Lidar com a ideia de ter os nossos destinos traçados por uma máquina, é surreal, mas estamos em um mundo tão absurdo, que a ideia já não nos parece nem mais tão distante, nem tão absurda.

Westworld vem recebendo desde o seu lançamento, em 2016, o mérito por nos fazer questionar as nossas vidas, realidade e almas. Somos assim tão mais importantes e especiais do que outras vidas? A nossa capacidade de refletir realmente nos torna especiais, isso nos dá uma alma, um ticket para fora daqui?

A terceira temporada continua cumprindo esse objetivo, mas agora em uma perspectiva não só da existência, mas social. A partir dessa visão, podemos pensar que talvez nós não estejamos predestinados a fazer coisas, mas sim a não fazê-las, como se determinados caminhos fossem automaticamente bloqueados por um sistema que nos analisa capazes ou incapazes.

Contudo, a mensagem da terceira temporada de Westworld pode ser entendida pelo ângulo pessimista, assim como pode ganhar um ponto de vista um pouco mais otimista. Dolores conseguiu mudar o seu mundo, para isso ela precisou destruí-lo. Podemos entender isso como uma metáfora para as prisões que todos nós temos, mas que evitamos enfrentar. Para conseguir ser livre é preciso destruir a gaiola em que nós, a partir de experiências, traumas, problemas, nos mantemos presos. A zona de conforto nem sempre significa conforto, e muito menos algo bom.

Já quando somos atirados à realidade de Caleb, humano enganado por sua própria espécie e que vive uma realidade que não necessariamente deveria existir, também podemos traçar duas linhas. A primeira é a clássica variável (quase invariável) do sistema que nos mantém presos em determinada realidade. E o sistema realmente pratica isso. A meritocracia, a discrepância de classes, o estado opressor e obsoleto, a falsa democracia e a internet que nos permite dizer o que quisermos, criam a ilusão de que possuímos certa liberdade para fazer e realizar o que quisermos, mas ainda assim, na maioria das vezes, nós não realizamos, porque esse mesmo sistema cria mecanismos para nos impedir.

A segunda linha passa pelo ponto de que sim, somos a todo momento condicionados a não destinar muitas coisas. Mas ainda possuímos a capacidade de transformar a nossa realidade. Quando acreditamos que somos condicionados e não destinados, a ideia muda completamente. Destino passa a ideia de algo imutável, já o condicionamento nos permite a transformação. E foi exatamente esse o final dessa terceira temporada de Westworld.

Dolores, Maeve, Caleb e Bernard tiveram suas existências condicionadas à uma realidade, uma linha traçada do início ao fim. Contudo, humanos – e anfitriões – possuem uma falha na sua criação, que o sistema de opressões tenta a todo momento consertar. Nós enxergamos a beleza do mundo e a beleza do mundo é um grande estopim para a mudança. A certeza da esperança.

Se tem uma coisa que Westworld tem nos ensinado e demonstrado de forma primorosa, é sobre a nossa própria capacidade de questionar a essa realidade. Agora a forma como questionamos e o que tiramos disso, é uma resposta tão individual quanto a nossa própria existência.