Olhos que Condenam: vidas negras importam, mas não para o Estado

Olhos que Condenam marcou 2019 trazendo uma reflexão necessária sobre a situação em que vive a população negra nos Estados Unidos. E nós resolvemos revisitá-la porque no Brasil a situação não é nada diferente.

Um jovem negro é morto a cada 23 minutos no Brasil. Essa sentença deveria ser um absurdo, mas a verdade é que pouco se faz, no sentido de políticas públicas, para mudar a situação.

Em Olhos que Condenam, temos a história de cinco jovens que são acusados injustamente de um estupro. Eles são acusados com base em único argumento: são negros. Para esses jovens não existiu justiça, obrigados e, inclusive, torturados para confessar, cumpriram pena e tiveram suas vidas transformadas para sempre.

No Brasil, um jovem foi assassinado dentro e casa. Seu corpo foi levado e a família o procurou durante horas sem saber o seu paradeiro. É verdade que balas não são teleguiadas para acertar apenas corpos negros, mas certamente a polícia é muito bem instruída sobre aonde deve agir.

Você consegue imaginar cinco jovens brancos do Leblon sendo acusados injustamente de um estupro, simplesmente porque estavam correndo próximo ao local onde o crime aconteceu? Ou ainda, um menino de 14 anos sendo atingindo por uma bala em sua casa em Ipanema? Não. E caso acontecesse seria uma tragédia sem precedentes, algo que a sociedade não poderia aguentar, uma completa barbárie.

O problema é que a barbárie está acontecendo com a população negra e pobre todos os dias. A polícia é treinada para enxergar a cor negra como um alvo, enquanto a população branca é ensinada a enxergar a cor negra com medo. O racismo é estrutural e todos nós precisamos falar sobre isso.

O nome original de Olhos que Condenam é “When The See Us”, em tradução livre, “quando eles nos vêem”. Quando um jovem negro é visto, ele é visto como um problema em potencial e a política genocida do estado é a de eliminação do problema. Ava DuVernay, criadora da série, deixa isso explícito em falas que são reproduzidas diariamente por pessoas ao meu redor e, com certeza, também ao seu redor.

Quando os cinco jovens foram acusados em 1989, Donald Trump utilizou todos os meios de comunicação possíveis para afirmar que eles eram culpados e deveriam ser punidos. Donald Trump fez isso a partir do seu racismo. Donald Trump, 27 anos depois viria a ser eleito presidente dos Estados Unidos.

No Brasil, último país a pôr um fim na escravidão, Bolsonaro é eleito com discursos, dentre tantos outros, racistas. E um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos no Brasil.

Assistir Olhos que Condenam é doloroso. Cada um dos episódios soa como um soco muito bem dado no estômago. Recomendamos a série por sua qualidade técnica, que é de tirar o fôlego, Ava DuVernay conduz a direção de forma brilhante e esfrega em nossas caras detalhes cruciais sobre o racismo que deixamos de perceber.

Ao longo dos cinco episódios é possível sentir a dor e o sentimento de impotência dos personagens, o futuro brilhante que cada um deles poderia ter tido e que chegou ao fim antes mesmo que eles pudessem começar. Quando o estado enxergou vidas negras, nesse caso, foi para resolver da maneira mais rápido possível o estupro sofrido por uma mulher branca e rica.

De maneira nenhuma a série diminuiu o peso do estupro, pelo contrário, ela também evidenciou que à época, a justiça de Nova York buscava apenas por resultados, acusando inocentes, cujo as vidas eram julgadas sem importância, deixando de realmente investigar o crime, deixando um estuprador livre e mulheres em perigo.

A série também mostra uma arma muito utilizada pela polícia, que é a estratégia de utilizar a baixa autoestima para manter o controle. Ficar repetindo o tempo inteiro que uma pessoa por ser negra e pobre nunca irá conseguir nada na vida, não é só um traço de manipulação, é racismo, é criminoso e é desumano. Isso tudo enquanto o discurso político é o de que todos somos iguais, todos somos humanos. Essas falas são o famoso dividir para conquistar. Fazer alguns acreditarem que tudo caminha bem, enquanto outros são mortos diariamente.

Cada minuto da narrativa é revoltante. É preciso que no Brasil, a gente comece a usar essa revolta contra esse sistema que oprime, destrói e assassina vidas negras todos os dias. Mesmo que você ache que não pode fazer nada para mudar, acredite, o seu posicionamento muda um pouco o mundo ao seu redor. Todas as vidas importam, vidas negras importam!