O dia em que a Terra parou: poder, pandemia e Raul Seixas

“Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou”

Quando a OMS declarou o estado de pandemia, não demorou muito para que as pessoas trouxessem à tona uma das músicas de Raul Seixas.

“O dia em que a Terra parou”, como diversas músicas do compositor, é carregada de críticas e poesia, mas essa em especial, é carregada de um simbolismo conectado diretamente ao momento em que vivemos. Isso, somado à sua amizade com o escritor Paulo Coelho, levanta nos mais crédulos a ideia de que Raul realmente previu os acontecimentos de hoje, resumidos em um dia.

Se Raul Seixas previu o Covid 19 ou não, a gente não pode afirmar, porém podemos afirmar com certeza que ele tinha uma visão política bem definida. Mas a ideia da música não surge do nada.

Escrita em parceria com o compositor Cláudio Roberto, a música é inspirada no filme homônimo, também já indicado aqui, que traz em sua narrativa um alienígena que chega à Terra para trazer uma mensagem de paz, para ter a atenção dos terráqueos, ele desliga todos os aparelhos eletrônicos, exceto os essenciais.

O filme, de 1951, é lançado no pós-guerra, tempo em que o mundo estava dividido pela tensão gerada entre a metade capitalista e a metade socialista. Portanto, em linhas gerais, ele contém uma mensagem pacífica.

A música de Raul e Cláudio caminha na mesma linha e consegue expandir o significado e a mensagem de paz. A letra que por vezes pode soar linear e repetitiva é, na verdade, uma crescente de acontecimentos necessários para que a tal da paz seja alcançada. Mas a questão aqui não é necessariamente as pessoas estarem em casa, mas o que esse dia em casa será capaz de provocar.

[O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não ‘tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não ‘tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não ‘tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar]

A terceira estrofe está intimamente ligada à questão de classe: o empregado, o patrão, a dona de casa, o padeiro, o guarda e a polícia. Esses são personagens clássicos que fazem a ordem social de classe girar. A lógica de empregado e patrão é auto explicativa. Se o empregado não trabalha, a empresa do patrão não funciona, a geração de riqueza é interrompida.

O padeiro e a dona de casa são a base dessa pirâmide. O padeiro provê o pão, é o arquétipo daquele que mantém a sociedade em pé, enquanto a dona de casa mantém a ordem não somente da casa, mas também de como as coisas funcionam fora. Sem ela, os padeiros, patrões, guardas e ladrões estariam sem rumo. No fim das contas, mais importante do que o padeiro, é a mulher que provê e se preocupa com o pão. E por fim, o guarda que representa a manutenção da ordem e o ladrão que é exatamente o oposto, não são necessários se a lógica da desigualdade está parada.

[E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não ‘tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não ‘tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não ‘tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar]

Igrejas, fiéis, alunos e professores. Igrejas e professores aqui representam a mesma coisa: colonização do conhecimento. É claro que igrejas e escolas não se resumem a isso. Mas quando elas são forçadas a parar, é importante que se reveja a forma como elas são conduzidas. As muitas igrejas que pregam o ódio e a desigualdade, enquanto escolas são cada vez mais deixadas de lado por governos, sendo o trabalho de professor um martírio e um estudante que pouco conhecimento absorve em anos de estudos.

[O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar
No dia em que a Terra parou]

No terceiro bloco temos o ápice de um sistema que não funciona e que por não funcionar, mata a todos nós. Em uma conta básica e de maneira bem simples, exércitos existem porque seres humanos possuem uma imensa necessidade de ter o controle. Seres humanos no poder, possuem uma gigantesca necessidade de ter mais e mais poder.

Sim, mas o que isso tudo tem a ver com a pandemia? Quando associamos a música de Raul Seixas ao contexto em que vivemos, percebemos que o Coronavírus abalou todas essas estruturas já citadas, mas não por um acordo, como é dito na música, mas por uma urgência que clama por uma mudança comportamental do sistema.

Nesse momento, se você usa a mão de obra do trabalhador para enriquecer, a suas riquezas não serão capazes de te salvar. O vírus não possui uma cura e nem o melhor e mais caro dos hospitais poderá te fazer melhorar. Essa seria a famosa metáfora para dizer finalmente, então, que agora todos somos iguais. Não somos.

O vírus não enxerga cor, gênero e classe, mas ao contrário da música, a sociedade não parou em um grande e belo acordo. Cidades como Milão, na Itália, fizeram campanhas, como segue fazendo o presidente Jair Messias Bolsonaro, para que as pessoas saiam de suas casas e executem os seus ofícios normalmente. Essas pessoas não são os patrões. Essa última frase, por si só, resume a lógica cruel da existência no planeta.

No entanto, nesse momento em que diversos estabelecimentos tiveram que parar e, principalmente, os trabalhadores tiveram que parar, fica nítida a lógica de que quem move o planeta são as pessoas que todos os dias devem pegar ônibus e metrô lotados, caminhar quilômetros, ter somente uma hora de almoço (quando tem) e sofrem pressões psicológicas grotescas por parte dos patrões incapazes de reconhecer que as engrenagens de suas empresas são as pessoas. A economia é movida por trabalhadores e trabalhadoras, por donas de casa e padeiros. Muitos ladrões surgem diante da lógica de não ter o pão, e o estado, ao invés de usar a sua guarda para proteger os que têm fome, fornece proteção a quem usa, explora e mata de maneira indireta tantas pessoas.

A sua fé até pode te salvar caso você seja contaminado, mas religiões e falsos profetas, em sua grande maioria pelo Brasil, resolveram que o dízimo não pode deixar de ser pago, que as igrejas não podem estar vazias. Decidiram que não precisam ajudar, porque tudo isso é um castigo divino. Enquanto muitas pessoas preferem acreditar que tudo isso é uma conspiração para destruir a economia do país. Para os dois casos, a educação cidadã deixou de existir e deu lugar à uma educação mecânica, que prepara braços para o trabalho duro, braços que não devem reclamar, braços que vão, mesmo sem motivo algum, defender o funcionamento pleno da empresa do patrão e agradecer ao presidente por 600 reais, que são obrigação e direito.

A pandemia é o tipo de acontecimento que de tempos em tempos surge para demonstrar o quão bons ou ruins todos nós podemos ser. Nós não vamos sair ilesos do dia, semana, mês ou meses em que a Terra tentou parar. Sairemos marcados para sempre e com a obrigação de lutar política e socialmente por um planeta que como sonhou Raul e Cláudio, livre da exploração do trabalho, da divisão dos papéis de gênero, com igrejas que trabalhem para o bem e escolas que sejam capazes de formar seres reflexivos, para que não seja necessária a existência de exércitos preparados para a morte.

Ficamos repetindo que tudo um dia irá voltar ao normal, mas não podemos esperar que o normal seja o nosso objetivo diante de toda essa situação. Precisamos acreditar que a vida, depois de uma pandemia, será valorizada. A vida de todos, a vida do negro, do pobre, da mulher, do homossexual, de todos que hoje e antes da pandemia, tinham os seus direitos ceifados todos os dias. Precisamos acreditar que ganharemos algo de bom com tudo isso e que o planeta não terá mais a cara do homem branco, hétero, rico e carregado de privilégios. Precisamos mudar.

E por hora, esperamos apenas que um dos versos se concretize rapidamente, que os médicos não tenham que se deslocar até o hospital, porque todos estarão bem e vivos em suas próprias casas, esperando pelo sonhado dia em que a Terra realmente irá parar.