Especial | Do paraíso ao inferno: conheça mais sobre Dante Alighieri e a sua Divina Comédia

Dante Alighieri

Por volta de 1265, nascia em Florença, de família abastada, um dos maiores nomes da literatura mundial e o maior nome da literatura italiana: Dante Alighieri. O poeta é considerado o pai da língua italiana moderna. Suas obras, grande maioria escrita em toscano, língua que muito se assemelha ao italiano atual, foram a base da construção da língua italiana.

Nascido no século XIII, época conhecida como a Idade das Trevas – noção que hoje muitos historiadores rejeitam ao afirmar que esse período foi de um grande crescimento cultural, e não apenas de guerras e trevas como tradicionalmente é demonstrado – dedicou-se aos estudos das letras, ciência, desenho, música e mais tarde também à teologia, o que lhe deu grande conhecimento para escrever sua principal obra. Aqui, é importante contextualizar que a península itálica era politicamente dividida e essas regiões ainda não compartilhavam a mesma cultura e a mesma língua. Esse fato comprova o interesse e a curiosidade que Dante possuía em aprender sobre coisas que estavam tão distante da sua vida em Florença.

Sabe-se muito pouco sobre a educação de Dante, o que leva muitos estudiosos a acreditarem que ele estudou em casa de forma autodidata. Dante estudou a poesia toscana e muito da Antiguidade Clássica, como Virgílio, Horácio, Ovídio e Cícero. O poeta faz inúmeras referências em sua Comédia, em especial a Brunetto Latini, a quem se refere como um instrutor e mestre, mesmo que o tenha colocado em seu Inferno na Divina Comédia.

Ainda muito jovem, aos nove anos, Dante se apaixona por Beatriz Portinari. Apesar de ainda ser uma criança, ele já era comprometido com uma noiva, o que impediu qualquer tipo de relação com Beatriz. Aos dezoito anos, Dante encontra-se com Beatriz pelas ruas de Florença, a lenda conta que a amada teria acenado para ele, depois disso os dois nunca mais se viram.  Em meados de 1290, o poeta recebe a notícia da morte de Beatriz, então, ele que estava escrevendo a obra Vida Nova, pôs em seus poemas a dor de perder o seu grande amor. Com isso, Dante abre os caminhos para outros artistas tratarem de um tema que talvez hoje seja trivial, mas que na época não tinha muita importância e ainda não havia sido tão enfatizado. O amor de Dante por Beatriz torna-se o amor que é tido como uma justificativa para se estar vivo. Em Vida Nova, o poeta promete que nunca mais escreveria nada sobre Beatriz até que pudesse lhe dedicar algo que nunca tivesse sido escrito à nenhuma mulher. Anos mais tarde, Dante cumpre a sua promessa e Beatriz é imortalizada como a fé na Divina Comédia.

Também ainda moço, Dante participou ativamente da vida política de sua cidade. Sua atuação na vida pública foi de extrema importância para Florença. Como afirma Boccaccio, nenhuma decisão era tomada sem que ele desse sua opinião. Dante foi embaixador da República, fez parte do Conselho do Estado e chegou a alcançar o cargo de “prior”, a suprema magistratura política de Florença. No entanto, a política que Dante tanto amou e fez parte da sua vida, também foi o seu maior desgosto.

À época desavenças políticas envolviam facções opostas de Florença, os guelfos, que eram partidários do papa, e os guibelinos, partidários do imperador do Sacro Império Romano. Essa disputa viria a inspirar Shakespeare a criar a famosa rivalidade entre os Montecchio e os Capuletto de Romeu e Julieta.

Após a vitória dos guelfos, ele viu que uma vez que estavam no poder, os guelfos começaram a brigar entre si, e acabaram por dividir-se: os guelfos brancos, do qual Dante fazia parte lutavam por uma maior autonomia de Florença, enquanto os guelfos negros apoiavam uma maior influência do Vaticano sobre a cidade. Em meio a essa disputa Dante alcança o cargo de prior da República de Florença que era governada por um conselho de seis priores. No poder ele e os demais priores expulsaram líderes políticos e deram mais autonomia a Florença.

Em 1301, tropas francesas ameaçavam invadir Florença. A ameaça fez com que Dante fosse até o Vaticano pedir ao papa que convencesse os franceses a desistir da invasão. O papa que não estava gostando nada da autonomia dos priores de Florença, ao invés de ajudar, apoiou a invasão e mandou a comitiva que acompanhava Dante de volta à cidade, mas o obrigou a ficar no Vaticano receoso de que o prior revelasse sua aliança com a França.

O exército francês entrou na cidade e deu o poder aos guelfos negros. Dante que recusou por duas vezes se apresentar ao novo governo florentino, foi condenado ao exílio por dois anos e também a pagar uma grandiosa multa. Como não pagou a quantia, foi condenado ao exílio perpétuo, e caso fosse capturado, seria, então, queimado vivo. O exílio, segundo o próprio Dante era como uma segunda morte. Viveu o restante de sua vida fora da terra que tanto amava, dessa maneira, ele nunca mais sentiu-se completo. Os últimos anos de sua vida Dante passou em Ravena, onde morreu aos 56 anos, em setembro de 1321, de malária.

A Divina Comédia

Seu magnum opus, “O Poema Sagrado de Dante”, anos depois denominado por Giovanni Boccaccio como “Divina Comédia” por se tratar de uma obra com um final feliz, tendo em vista que no período em que o poema foi escrito, as obras eram separadas em Comédia, quando tratava-se de um final feliz, e Tragédias, com finais onde tudo dava errado. Trata-se de um poema épico e teológico que se divide em três partes: inferno, purgatório e paraíso.

O poema, o maior conhecido pela cultura ocidental, é dividido em cantos compostos por tercetos. Todo o poema é estruturado no simbolismo do número 3, que faz referência a Santíssima Trindade e ao triângulo, ou seja, ao equilíbrio. Possui três personagens principais: Dante, representando o homem; Virgílio, poeta clássico que muito inspirou o escritor, representando a razão; e Beatriz, sua eterna amada, representando a fé. Cada poema conta com 33 cantos, o Inferno conta com um canto a mais que funciona como um canto introdutório, assim, a obra tem um total de cem cantos, caminhando do Inferno, ultrapassando o Purgatório e por fim, ascendendo ao Paraíso.

A Divina Comédia de Dante foi um dos maiores responsáveis pela criação do imaginário cristão. Escrito em toscano, o poema foi precursor ao demonstrar uma imagem do mundo que espera os homens após a morte.

O Inferno tornou-se o mais conhecido e o mais lido, por vezes até lembrado como um livro único: O Inferno de Dante, isto, por possuir uma descrição vívida do inferno que leva o leitor a estar dentro desse ambiente de forma fantástica. Já as outras duas partes do poema contém um alto nível filosófico e teológico, com metáforas de difícil entendimento, o que torna a leitura mais complexa, exigindo alguma pesquisa e um pouco mais de paciência por parte do leitor. O Purgatório é considerado o mais humano dos livros, e também foi um grande responsável pela ideia que se tem hoje sobre o purgatório. Nessa segunda parte do poema é também onde aparece o maior número de poetas, o que leva a crer que, apesar de poetas, Dante ainda não os via como dignos ao paraíso. O Paraíso é repleto de visões místicas, é o livro com o maior grau de teologia, onde Dante eleva o ser humano ao mais alto grau de êxtase.

Muitas crenças populares cristãs surgiram sob os conceitos de Dante de inferno, purgatório e paraíso.

Dante Alighieri e a sua influência para a história da arte

La Mappa dell’ Inferno – Sandro Botticelli

Apesar de ter sido reconhecido um século após sua morte, a grande influência cultural e literária do poeta ocorreu entre os séculos XIX e XX, durante o romantismo e o modernismo, onde os extremos do ser humano começaram a ser pensados pela literatura e a arte como um todo, e Dante soube como ninguém demonstrar todos os estados extremos, da angústia ao êxtase da humanidade.

A Divina Comédia e o próprio Dante foram representados por diversos pintores em diferentes períodos da história. O poema foi capaz de mexer com a imaginação de nomes como: Sandro Botticelli, que retratou os nove níveis do inferno, Eugene Delacroix, que deu vida à Barca de Dante, William Blake que recriou os pecadores libidinosos girando em uma tempestade eterna, William-Adolphe Bouguereau, que deu uma visão erótica de Dante e Virgílio observando dois homens nus em combate, Salvador Dalí, que criou uma série de xilogravuras e aquarelas excêntricas, Henry Holiday, que pintou o encontro entre Dante e Beatriz, Domenico de Michelino, que imortalizou o poeta e sua obra, Annibale Gatti, que demonstrou a tristeza do exílio de Dante, Gustave Doré, que criou suas fenomenais gravuras em preto e branco do inferno, Edgar Degas,  que colocou Dante e Virgílio às portas do inferno, e até mesmo Michelangelo Buonarroti, que também era um poeta e dedicou ao maior escritor italiano um poema chamado “Dante”, onde fala sobre o homem que lhe inspirou em seu Juízo Final, na Capela Sistina.

A Divina Comédia também moveu a genialidade de escultores. Auguste Rodin esculpiu A Porta do Inferno, e também O Pensador que representaria o próprio Dante, Charles-François Hutin moldou Caronte, o barqueiro infernal de Dante.

A visão dantesca inspirou brilhantes mentes da história: Longfellow, Marx, Borges, Byron, Victor Hugo e C.S. Lewis escreveram tributos, traduções, variações e obras baseadas no poema sagrado. Em 2013, o escritor contemporâneo Dan Brown lançou o livro Inferno, escrito com base no Inferno de Dante.

Monteverdi, Tchaikovski, Puccini, Liszt e Wagner criaram brilhantes peças musicais também baseadas na grande obra do poeta italiano.

Outras obras

Além da Divina Comédia, outros títulos feitos pela mão do poeta são: De Vulgar Eloquentia, sobre a língua vulgar, curiosamente Dante o escreveu em latim; Vita Nova, onde é narrada a história de seu amor por Beatriz; Le Rime, no qual, mais uma vez, Dante expressa o seu amor platônico pela amada; Il Convivio, de caráter filosófico, faz parte das obras que pretendiam dignificar a língua vulgar; De Monarchia, esse livro defende a supremacia do poder temporal sobre o poder papal, Dante lembra nessa obra que mesmo Jesus Cristo não desejava o poder.

Por fim, a genialidade de Dante Alighieri é algo inegável. Victor Hugo, um dos maiores nomes da literatura francesa, autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre Dame, afirmou que o pensamento atinge em determinados homens a sua completa intensidade, e colocou Dante Alighieri como um completo gênio.

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