Especial | Mulheres que revolucionaram: Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu no dia 14 de março de 1914, em Minas Gerais, mas foi em São Paulo, na extinta favela do Canindé, que ela escreveu os seus textos, textos que a eternizariam na literatura, mesmo que ainda seja desconhecida por muitos.

Mas por que a obra de uma escritora que produziu nada mais, nada menos do que 5 mil páginas, totalizando 7 romances, 60 textos curtos, 100 poemas, 4 peças de teatro e 12 letras para marchas de carnaval, não está sendo ensinada como um dos grandes nomes da literatura nacional nas escolas? Por qual motivo não pensamos em Carolina de Jesus quando procuramos por uma grande autora? A resposta é simples, mas complexa por sua dura realidade: Carolina era negra, pobre e da favela. Se já sabemos que o trabalho de mulheres seja lá qual for a área é diminuído e invisibilizado, imagine o resultado de uma questão como essa.

Contudo, os escritos de Carolina conseguiram ir longe, muito longe. Catadora de lixo, na década de cinquenta escrevia nos cadernos que encontrava em seu caminho, sobre o seu cotidiano e a vida na favela. Seus pensamentos chamaram a atenção do jornalista Audálio Dantas que teve a sorte de cruzar com Carolina em sua trajetória. A obra da escritora foi publicada. A vida no Canindé virou um livro. A favela foi desvelada.

Quarto de Despejo, o seu primeiro livro publicado, discorria, ao modo de Carolina, ao modo de quem vive para sobreviver, sobre a época da “modernização” da cidade de São Paulo. Durante o momento no qual surgem as periferias, surge também um ponto de vista feminino sobre aquilo tudo. Naquele período, ela escreveu sobre um contexto ainda tão atual.

Carolina Maria de Jesus

Carolina possuía um olhar preciso sobre aquilo o que estava ao seu redor. Para ela, a cidade era uma grande casa e a favela é o quarto onde se deposita as coisas indesejáveis, que não se usa mais. Carolina, ainda em Minas Gerais, estudou durante apenas dois anos, quando aprendeu a ler e escrever e tomou o gosto pelos livros, foi o suficiente para que ela fosse capaz de entender fatos que sociólogos, antropólogos e cientistas políticos teorizaram e ainda teorizam de maneira tão complexa.

A escritora não escreveu apenas do ponto de vista de quem vê, mas de quem vive. Por esse motivo, ela não foi bem vista pela sociedade da época e não se rendeu às questões partidárias, vivendo de maneira bem simples durante o restante da vida.

O livro Quarto de Despejo teve mais de um milhão de exemplares vendidos, foi traduzido para catorze idiomas e vendido em mais quarenta países, sendo uma das obras brasileiras mais comercializadas no exterior. É referência para estudos culturais e literários tanto no Brasil, quanto no exterior.

Carolina revolucionou a literatura, a sociedade, a cultura, o mundo à sua volta e a sua própria vida. Foi a literatura e aqueles dois únicos anos de estudo em sua infância que permitiram à Carolina escrever os seus pensamentos e deixar a favela, podendo viver de maneira simples durante o restante de sua vida, sendo capaz de proporcionar aos seus filhos a educação em escolas públicas. Nunca se casou, não queria ter de se submeter a um homem. Criou os seus três filhos sozinha, uma delas hoje é professora. Faleceu no dia 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos.

“Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.”

Acesse o portal biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus.

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