Especial | Mulheres que revolucionaram: Angela Davis – a força da mulher radical

“Se todas as vidas importassem, nós não precisaríamos proclamar enfaticamente que a vida dos negros importa.” – Angela Davis

 

Angela, mulher, negra, ativista, feminista e professora, viveu um árduo caminho de luta e coragem, em busca de direitos, tornando-se um dos mais importantes símbolos do movimento negro nos Estados Unidos e uma das maiores vozes do feminismo negro por todo o mundo. Isso, porque Angela nasceu e viveu em um local onde uma das maiores organizações – criminosas – civis supremacistas já conhecidas, usava de meios infinitamente cruéis para torturar e matar a população negra.

Na cidade de Birminghan, no estado americano do Alabama, em 1963, aconteceu um dos maiores e mais marcantes crimes da história do país. Quatro meninas, Addie Mae Collins, Cynthia Wesley, Carole Robertson e Carol Denise McNair, com idades entre 11 e 14 anos, foram assassinadas, enquanto outras 22 pessoas foram atingidas e feridas, após um ataque do grupo Ku Klux Klan contra a Igreja Batista da 16th Street, onde grupos pró-direitos civis se reuniam. Foi nessa cidade e sob o contexto ainda de segregação racial, que Angela Yvonne Davis nasceu, em 26 de janeiro de 1944.

A ativista tem a luta no sangue, Sallye Davis, sua mãe, fez parte de organizações pelos direitos civis e atuava na comunidade, essa mesma comunidade massacrada pela Ku Klux Klan, onde as quatro meninas assassinadas, eram colegas da irmã mais nova de Angela. Sallye e Angela unem-se a outras grandes mulheres do movimento, como Rosa Parks, Ella Baker, Fannie Lou Hamer e Diane Nash.

Toda a vida da filósofa foi marcada pela luta por direitos. Ainda na adolescência, Angela montou grupos de estudos interraciais, que foram perseguidos, reprimidos e proibidos pela polícia. Em 1959, com 15 anos, ganhou uma bolsa de estudos que permitiu que ela fosse para Nova York, estudar na Elisabeth Irwin High School, uma escola formada por professores com ideologias de esquerda não aceitos pelo sistema público de ensino americano. Seguiu os estudos na universidade de Brandeis, Massachussetts, onde cursou Literatura Francesa, e obteve um intercâmbio para a Universidade de Sorbonne.

Na França, ela desenvolveu o seu interesse pela filosofia. Foi aluna de Herbert Marcuse, uma das maiores referências da nova esquerda americana (New Left). Ao terminar a graduação, mediante ao seu desempenho acadêmico, recebeu uma nova bolsa, dessa vez para a Alemanha, na Universidade de Frankfurt, onde teve aula com Theodor Adorno e Jürgen Habermas.

De volta aos Estados Unidos, em 1967, Angela que havia voltado justamente por motivos políticos, encontra um contexto de protestos e rebeliões. A violência policial contra a população negra proporciona o aumento do movimento e diversas revoltas pelo país, em locais onde, curiosamente, a segregação racial nunca havia sido institucionalizada. Com o tempo, a violência e as revoltas, os Estados Unidos foi se desvelando como um país racista em sua totalidade.

Dentro desse contexto, em 1967, Angela Davis ingressa no Partido Comunista e também no Partido dos Panteras Negras. A saída do Panteras, em 1968, deu-se por questões ideológicas. Angela aponta que a grande maioria dos movimentos da época eram extremamente sexistas, incluindo o Panteras Negras, que defendia em seu discurso a igualdade de gênero, mas que como muitos movimentos – e homens – ainda hoje, não colocavam a retórica em prática. A maioria dos movimentos entendia, atravessados pela cultura patriarcal, defendia o poder negro somente para o homem negro, e não para a comunidade como um todo.

Angela permaneceu filiada ao Partido Comunista, um movimento visto com maus olhos por muitos militantes negros, que não acreditavam que o marxismo fosse a solução para o fim do racismo. Contudo, Angela discordava, para ela, era preciso derrubar não só o racismo, mas também o capitalismo e o imperialismo, e para isso, as classes e grupos marginalizados precisavam se unir.

O ativismo e força política de Angela Davis, que não se rendia aos estereótipos esperados pelos brancos, assim como não abaixava a cabeça para os homens do movimento negro, a levaram à lista dos dez mais procurados do FBI, em uma época onde a caça aos comunistas era institucionalizada. Richard Nixon a categorizou como terrorista, a sua prisão foi realizada sob a acusação de que uma arma utilizada para sequestrar um juiz, um promotor e jurados, estava em seu nome, portanto, ela foi acusada de ser a mandante do crime, na ocasião quatro pessoas morreram. Angela, que sempre alegou inocência, permaneceu presa por um ano e meio, onde passou a maior parte do tempo isolada na solitária e com muita força, trabalhou em sua própria defesa, além de ter escrito alguns artigos.

Campanhas nacionais e internacionais foram realizadas, John Lennon e a banda The Rolling Stones fizeram músicas em sua homenagem, Free Angela é lembrado até hoje e estampa camisetas por aí. Em 1972, Angela fez parte de sua própria equipe de defesa, foi a julgamento, acabou inocentada e, definitivamente, teve a sua imagem transformada em um ícone de luta. Após a sua prisão, julgamento e soltura, Angela voltou a lecionar e tornou-se referência em feminismo negro, abolicionismo penal e sistema carcerário, o qual ela luta há décadas veementemente contra.

Ainda viva, Angela voltou aos holofotes um dia após a posse do presidente americano Donald Trump, durante a Marcha das Mulheres, onde discursou sobre as marcas atuais e passadas do racismo, machismo, xenofobia e autoritarismos políticos. Ela segue em sua luta contínua e diária, um nome forte capaz de impulsionar, mais de 50 anos depois, o ativismo de jovens mulheres dispostas a lutar por aquilo que acreditam e que, assim como Angela, provocam a revolução, falando sobre a liberdade e a transformação da realidade.

 

Veja abaixo o discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres:

 

Fonte: Biography

Fotos: Divulgação.

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