Courtney Barnett em Porto Alegre: um dos principais nomes do rock atual

Conhecemos a australiana Courtney Barnett em uma dessas buscas por mulheres na música, ou melhor, mulheres instrumentistas e mais do que isso, mulheres na guitarra, mulheres com a potência musical que muita gente ainda acredita ser só dos homens. Encontramos Barnett, descobrimos o seu excelente primeiro álbum, um dos melhores do ano de 2016, que lhe rendeu prêmios e indicação ao Grammy.

Encontramos Barnett um pouco antes do lançamento de seu segundo álbum, Tell Me How You Really Feel. Um disco muito diferente daquele lançado dois anos antes, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit. Um álbum que vinha com um primeiro single que traz em seu refrão uma frase do Conto de Aia, canções de letras simples, mas não simplórias, letras que tocam naqueles (ou mais especificamente naquelas) que sabem como realmente se sentem.

Tell Me How You Really Feel foi um dos melhores álbuns de 2018 e ganhou espaço merecido na nossa lista com os dez melhores do ano. Quando os shows no Brasil foram anunciados, não tinha outro jeito, precisávamos ver a guitarra de Courtney Barnett ao vivo.

No dia 22 de fevereiro, no Bar Opinião, em Porto Alegre, sem show de abertura, a música entrou no palco acompanhada de seu baixista e baterista. Sem voz. Talvez pela noite anterior, com a emoção de um show em São Paulo, Courtney perdeu um pouco de sua voz e levou ao menos três músicas para conseguir se achar em tom aceitável, acelerando uma música aqui, outra ali.

Por outro lado, o show com a guitarra, acompanhada de seus músicos e uma excelente engenheira de som, começou já na primeira música. Canhota e sem palheta, a australiana mostrou ali, para o público do opinião que o rock não só está vivo, como passa muito bem, na mão de mulheres como ela. Como disse a página do Opinião, que a citou como “meio indie, meio grunge”, Courtney Barnett é mais do que isso, é a autenticidade que as bandas masculinas esgotadas por mais do mesmo, não têm conseguido alcançar.

Tímida durante todo o show, com um “obrigado”, aqui, um “thank you” ali e raras explicações sobre uma ou outra música, ela fez o necessário com suas guitarras e efeitos, aproveitando para fazer um som mais sujo e distorcido do que no álbum, a guitarrista aproveitou para solar em cada uma das músicas, em uma clara sintonia com o instrumento, em notas que arrepiavam o público.

As simples luzes de palco davam o tom em cada música, a atmosfera de cada uma delas era alcançada com êxito, especialmente em Nameless, Faceless, onde a luz vermelha exibia praticamente a capa do álbum, definitivamente o momento mais explosivo do show. E claro, o público brasileiro canta de uma forma que nenhum gringo vai ver em outro país, Barnett era só sorrisos, a palavra “faceira”, define muito bem como ela deveria estar se sentindo.

Courtney Barnett deixou o Brasil rumo ao restante de sua turnê, mas a certeza que ela deixou para quem presenciou o seu show foi a de que precisamos continuar buscando e apoiando mulheres instrumentistas. Até porque, se dizem que nós mulheres temos um instinto de cuidado natural, nada mais justo que cuidemos também da música.

Agora fica o pedido por Tash Sultana, Phoebe Bridges, Julien Baker, Lucy Dacus (pode ser no combo Boygenius) e se não for pedir muito, a deusa St. Vincent. Fica o recado, Popload.

Foto: Bruno Bujes, em Popload.