Do lar aos palcos: entenda como as mulheres brasileiras estão conquistando o mundo da música

A discussão sobre a participação das mulheres em qualquer que seja o campo da sociedade segue aumentando e a tendência é que isso se propague ainda mais. Seja na política, nos cargos de chefia, na arte e até mesmo na construção civil, mulheres caminham para ocupar os espaços que durante séculos lhes foram negados. Em sua pesquisa, a multi-instrumentista, produtora e pesquisadora Natalia Cabugá, remonta a história da mulher na música no ocidente para responder o porquê de haver poucas mulheres instrumentistas-compositoras ocupando os espaços visíveis da produção cultural-musical no Brasil.

O trabalho para as mulheres, ainda se desenvolve sob uma ótica problemática de dominação e opressão. Ainda no século XXI, as limitações impostas ao trabalho feminino continuam a colocar a mulher a partir dos estereótipos de padrões binários como de Eva e Maria, vulgo a puta ou a santa. Sem contar as determinações da vida privada, que ainda obrigam a grande maioria das mulheres a exercerem jornadas duplas e até triplas de trabalho, o que as coloca numa exaustiva desvantagem, principalmente quando se trata do desenvolvimento de habilidades artísticas.

Quando pensamos no âmbito da arte, precisamos nos esforçar para encontrar mulheres que atuaram e ficaram para a história. Em geral, essas exceções são consideradas a regra e funcionam dentro do discurso meritocrata masculino do “sempre foi possível, você não tentou o suficiente, ela conseguiu”, impulsionando, para além da insegurança, a competitividade entre as mulheres pela ocupação do limitado espaço destinado à exceção. A verdade é que em qualquer linguagem artística, a mulher foi engessada pela sociedade masculina enquanto musa. Temos as musas do cinema, as musas das artes visuais e, claro, as musas da música.

Na cultura ocidental, mulheres foram privadas por séculos de absolutamente todas as formas do saber. À mulher, segundo Rosseau, filósofo iluminista, cabia apenas a responsabilidade de satisfazer o marido em tudo aquilo o que ele achasse necessário. A mulher não deveria produzir pensamento, portanto, não deveria estudar tampouco produzir música. Assim, quando o fazer musical passou a ser permitido às mulheres, era somente como hobby, com a possibilidade apenas de reproduzir músicas, sendo a composição vista com maus olhos pelos cidadãos de bem da época.

Certamente, você já viu em algum filme, série ou até mesmo novelas da Globo, uma mulher em épocas passadas tocando piano. Isso porque, a partir do século XIX, o piano se tornou um dos mais importantes ornamentos femininos. Sim, além de belos vestidos, uma boa aparência e elegância, as mulheres também deveriam tocar piano para impressionar os seus pretendentes e garantir um bom futuro como esposa, profissão então reservada às mulheres consideradas de sorte.

Aqui, nesse caso, nos referimos, em grande maioria, às mulheres brancas e de classe social privilegiada, já que para as trabalhadoras esses instrumentos tinham (em muitos casos ainda têm) um custo fora da realidade e as mulheres passavam a maior parte do tempo trabalhando por salários miseráveis para sustentar a família. É importante frisar que a história das trabalhadoras negras é paralela, mas bem diferente, devido ao contexto de forte racismo no Brasil e ao fato de que a abolição da escravatura se deu na teoria apenas em 1888, já no final do século.

As mulheres de famílias abastadas, passaram a ter o piano como uma possibilidade, além de conseguir um bom casamento, também de expandir a liberdade em algum ponto. Na mesma época surgiram os salões no Rio de Janeiro – uma espécie de ‘festa no apê’ da alta sociedade – que acabavam por misturar o público e privado, ou seja, ao mesmo tempo que as mulheres se apresentavam para as suas famílias e convidados, também tinha um momento de visibilidade de apresentação. Algumas arriscando exibir até mesmo composições próprias, desde que fossem anfitriãs agradáveis.

No entanto, esses feitos que se propunham ao profissionalismo musical, não eram bem aceitos pela sociedade, portanto apresentações ao público em teatros foram raras e performadas pelas exceções. Esse tipo de exposição era vista de forma escandalosa e muitas mulheres da música, ao fim, se tornavam professoras de piano, quase sempre para outras moças, sendo o máximo permitido em uma profissão considerada aceitável.

Nesse momento surgiu nos palcos a primeira exceção musical feminina brasileira, Chiquinha Gonzaga. Grande instrumentista-compositora aclamada, inclusive no exterior, uma mulher negra foi a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil, já no período entre o XIX e o XX. Todavia, o caminho dela não foi fácil. Antes da celebração, ela foi recusada diversas vezes pelos teatros brasileiros e o reconhecimento musical veio também mediante ao fato de Chiquinha estar envolvida em uma série de outras lutas, como a abolição da escravatura e a proclamação da república e sob o sofrimento de perder o contato com os filhos, por imposição do ex-marido que não permitia o seu fazer musical.

Outras mulheres, não pertencentes à aristocracia brasileira, não puderam sequer tentar a sorte em espaços culturais, como Chiquinha pôde. Para as pobres de regiões descentralizadas como Helena Meirelles, violeira do interior do Mato Grosso do Sul, difíceis escolhas precisaram ser feitas para viver do fazer musical, rompendo com a sua família e deixando para trás uma dezena de filhos, para se apresentar nos espaços disponíveis, como prostíbulos e festas de beira de estrada. Helena quase morreu no desconhecimento, até que foi descoberta pela revista americana Guitar Player, que a classificou como nada mais, nada menos do que uma das cem maiores guitarristas de todos os tempos, ao lado de famosos ícones idolatrados pela indústria cultural.

Chiquinha Gonzaga e Helena Meirelles, representam as exceções, são mulheres que tiveram que abrir mão da vida que lhes foi apresentada como a ideal, ou seja, a vida dentro da lógica estabelecida, tendo que renunciar de muito para fazer algo ainda maior, abrindo caminho para outras mulheres.

A classe social, facilitou para que Chiquinha tivesse acesso aos meios que a levaram ao reconhecimento em vida e permanecesse sendo celebrada e lembrada também pela história legitimada, sendo a data de seu aniversário o dia da música popular brasileira. Enquanto Helena, de classe pobre, teve o reconhecimento tardio, sendo ainda uma desconhecida para a maioria do público brasileiro. A história da mulher da música é dura e se mantém exaustivamente estereotipada.

Ainda hoje, é difícil encontrar com facilidade nos grandes veículos midiáticos mulheres instrumentistas e compositoras, a maioria delas circula pelo meio independente. Uma mulher com um instrumento representa uma negação da feminilidade à sociedade das meninas de rosa, enquanto uma mulher que executa apenas o canto, representa a afirmação da feminilidade, ou seja, para uma sociedade sexista, o ideal é que mulheres utilizem sempre somente o corpo, aceitando o papel de musa e de fetiche.

Entretando, o mundo está mudando e as mulheres invisibilizadas por uma indústria comumente amarrada aos padrões retrógrados, têm construído os seus próprios campos de atuação por todos os setores do mercado, estreitando a competitividade com os gigantes acomodados. A representatividade está sufocando a histórica cultura da exceção através desse importante processo de transição do imaginário da mulher perfeita para a mulher coragem, as quais cada vez mais ocupam os espaços.

Segundo uma pesquisa divulgada pela Fender, já representam 50% do mercado de violões e guitarras na América do Norte e no Reino Unido. O resultado é excelente, pois ao se tornarem público-alvo de gigantes do mercado de equipamentos, são reconstruídas as campanhas publicitárias que circulam pelo mundo, agora trazendo a imagem da instrumentista habilidosa. As marcas que insistem na pegada ‘flying panties’ (calcinhas voadoras), se utilizando da imagem fetichizada da mulher para atrair supostos consumidores, acabam por se colocarem (mais cedo ou mais tarde) em difíceis situações financeiras, como a Gibson e sua recente quase falência.

É preciso combater as estereotipações, inclusive, do padrão de mulheres que podem ou não serem as vocalistas. Difundir o fato de que mulheres podem ocupar os espaços que as interesse no mundo musical, é a bandeira do movimento das mulheres da música no Brasil. Já temos muitas ações de visibilização de mulheres por mulheres no Brasil, como o Women’s Music Event (WME), o Sonora – Festival Internacional de Compositoras, o Girls Rock Camp Brasil e agências de produção musical, como a Sêla, que se dedicam exclusivamente às músicas e, claro, bandas formadas somente por mulheres, como o fenômeno Mulamba.

Nunca antes na história as mulheres estiveram tão presentes no setor musical e essa transformação se reflete diretamente em ressignificação cultural. Se o presente é inspirador, o futuro é de meninas corajosas e de muitas instrumentistas, compositoras, produtoras, engenheiras, etc., ocupando os espaços destinados à produção cultural-musical aqui e no mundo.

É tempo de celebrar as inúmeras mulheres da música do passado,  invisibilizadas pela história escrita pelas mãos masculinas que podiam publicar, assim como dar voz e espaço ao apoiar as meninas e mulheres da música do agora, para que mais e mais se permitam experienciar os erros e acertos do fazer musical e, não somente, serem tratadas como chamariz de músicos. O mundo está mudando e isso é bom.

 

Foto: Mulamba Oficial – @dudadalzoto / @hai.studio