Especial | Mulheres que revolucionaram: Nina Simone

Nina Simone. Foto: Jack Robinson

O ano é 1933. O mundo vive um ilusório momento de paz após a grande Primeira Guerra. No Brasil, Tarsila do Amaral pincela seus operários e o início da pintura social. Em Portugal, o clássico cinematográfico A canção de Lisboa estreia. Na Alemanha, o Partido Nazista promove o expurgo cultural na “Queima de livros” nas universidades alemãs. Enquanto isso, nos Estados Unidos, nasce uma das maiores musicistas do século XX que incorporou as tragédias e conquistas de seu tempo: Nina Simone.

Pianista, cantora, compositora e ativista pelos direitos civis norte-americanos, Nina tornou-se conhecida nos meios musicais do jazz, mas trabalhou com diversos estilos musicais, como a música clássica, blues, soul e gospel.

Nina Simone, nasceu Eunice Kathleen Waymon, na cidade de Tryon, Carolina do Norte. Era a sexta filha de um marceneiro e uma doméstica. Apesar da simplicidade da vida da família Waymon para ter posse de um piano, sua mãe era ministra da Igreja Metodista onde havia o instrumento e a levava junto às reuniões. Foi em meio a uma atmosfera intensa de louvores gospel que ela, aos três anos de idade, começou a tocar piano.

Com cerca de doze anos, Nina apresentou-se pela primeira vez no teatro local de Tryon, com o coral da igreja. Naturalmente, seus pais sentaram-se na primeira fileira, mas foram forçados a sentar-se atrás do hall para abrir espaço para os brancos. Simone, então, recusou-se a tocar enquanto seus pais não fossem movidos para a fileira da frente, e esta  foi a primeira atitude tomada por ela frente aos movimentos pelos direitos civis. Na ocasião, ela foi ouvida pela professora de música, Sra. Mazzanovich, a qual mesmo tendo consciência dos problemas que viria a enfrentar, decidiu dar aulas de música à jovem pianista afroamericana.

Durante mais da metade do século XX, a questão racial afetou amplamente os Estados Unidos. Os bairros eram divididos entre áreas de negros (frequentemente pobres) e áreas de brancos (geralmente ricas). Havia leis que permitiam as prefeituras de arbitrar se raças poderiam se misturar nas comunidades, punindo os que não cumprissem as regras estipuladas.

Na década de 1940, os estadunidenses viviam em um contexto de segregação baseado na discriminação racial. O racismo era visto por muitos como uma forma de darwinismo social, afirmando que a segregação era, de alguma forma, condizente com as leis da natureza, com os brancos sendo superiores aos negros. Assim, muitas pessoas afirmavam que seu racismo não era preconceituoso, mas sim baseado em “ciência”.

Nina Simone. Foto: Jack Robinson

Durante os cinco anos seguintes à apresentação no teatro, em todos os finais de semana, Nina superava o medo do ameaçador mundo dos brancos para cruzar a ferrovia que dividia, literal e figuradamente, o seu mundo e o da Sra. Mazzanovich para estudar piano clássico.

Com a paixão pela música clássica, sua realidade segregada pela discriminação, foi substituída pela leveza do mundo mágico de seus sonhos que divagavam pela efervescência musical da Alemanha de Johann Sebastian Bach. Nina solfejava notas musicais do século XVII / XVIII, de um continente desconhecido e as digitava no velho piano com tamanha destreza e amor, que sua professora não tinha mais dúvidas: ela se tornaria uma das maiores concertistas de piano no mundo. E este sonho impulsionou de forma ferrenha os estudos da jovem musicista que ambicionava tornar-se a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos. Assim, Nina, estudava Frédéric Chopin, Renaud de Vilbac, Claude Debussy, Ludwig van Beethoven e Johannes Brahms, treinando oito horas por dia visando aprimorar-se. Sua professora, Sra. Mazzanovich, chegou a criar o Fundo Eunice Waymon, uma poupança para bancar sua educação futura.

Nina morou no sul por dezessete anos e depois de sua formatura no colegial ela usou o dinheiro economizado em sua poupança para estudar durante um ano e meio na escola de música Juilliard em Nova York. Foi então que candidatou-se à uma bolsa de estudos no Instituto Curtis de Música, na Filadélfia. A escola aceitava negros desde o início da década de quarenta, e Simone sentia-se pronta para progredir em seus estudos. Escolheu cuidadosamente um repertório que incluía Carl Czerny, Franz Liszt e Sergei Rachmaninoff para sua audição, além de Bach, seu compositor favorito. Tinha consciência de que era boa o suficiente para ser aprovada. No dia 07 de abril de 1951, Eunice Waymon recebeu o resultado de sua audição: recusada. O peso da influência que o racismo exercera sobre sua vida tornara-se evidente: a menina que um dia sonhou e estudou incansavelmente para tornar-se a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos foi barrada, segundo sua própria conclusão, pelo preconceito.

Sem outra forma para sustentar seus estudos, começou a trabalhar em um bar em Atlantic City, New Jersey. Durante sete horas diárias, tocava tudo que lhe pedissem, desde canções populares às spirituals. Foi então que começou a cantar para manter seu emprego e adotou o pseudônimo Nina Simone para que sua mãe não soubesse que estava cantando “músicas do diabo” em bares, como esta as definia.

Ela possuía o dom magnífico de pegar uma peça musical e não apenas interpretá-la, mas metamorfoseá-la, transformando-a em uma experiência única e profunda. Talvez sua característica mais marcante fosse suas imprevisíveis alterações tonais executadas durante uma música. Em relação à profunda emoção de suas interpretações e composições, Nina disse: “Transmitir uma mensagem emocional significa usar tudo que se tem dentro de si para tocar uma nota ou se tiver a força para cantar, cantá-la. Assim, às vezes, eu soo como cascalho, e outras vezes, como café com creme.”

A evidente mistura de jazz, blues e música erudita fascinou o público que a prestigiava em suas longas noites de trabalho. Em 1958, gravou o dueto I Loves You, Porgy, da ópera Porgy and Bess, de George Gershwin, a qual tornou-se a sua única canção a alcançar o top 20 da Billboard nos Estados Unidos. Como consequência natural de um grande sucesso, Nina gravou seu primeiro álbum intitulado Little Girl Blue, pela Bethlehem Records.

No decorrer dos anos, Nina interpretou e compôs letras politizadas e sentimentais notabilizadas pelas harmonias ora elegantes e suaves, ora dissonantes e ruidosas. Possuía estas características do Soul, o qual é resultado da união do Rhythm and Blues (versão acelerada e alegre do Blues) com o Gospel (versão eletrificada e pungente dos Spirituals). Tudo isso somado a sua característica execução da escala bachiana, considerada por muitos críticos e músicos, como extremamente difícil e confusa, resultava em sua inconfundível identidade musical.

Nina Simone. Foto: Vernon Merritt III

Quando estava no palco, incorporava suas origens spirituals, levantando-se, batendo palmas e fazendo movimentos rítmicos com o corpo como acompanhamento da música.

A angústia e a animosidade que compunham sua voz foram transformadas em luta. Nina Simone entregou-se à militância pelos direitos civis depois da morte de quatro garotas negras numa igreja bombardeada por supremacistas brancos da Ku Klux Klan em Birmingham, Alabama, em 1963. Polemizou ao falar aquilo que muitos pensavam, mas não tinham coragem de dizer, ao compor a canção Mississippi Goddam, que pode ser traduzida como “maldito Mississipi”, uma expressão considerada ofensiva, inspirada no infeliz episódio e  em resposta ao assassinato do ativista afroamericano Medgar Evers do Movimento dos Direitos Civis do Mississipi.

Entre 1955 e 1968 os Estados Unidos viviam a efervescência do movimento civil negro, que lutava por reformas que visavam abolir a discriminação e a segregação racial no país. Neste período teve o aparecimento de movimentos como o Black Power e os Black Panthers ampliando a discussão em relação a dignidade racial. Nina fazia parte de populares grupos de liderança: ela circulou entre Martin Luther King Jr., James Baldwin, Malcom X e Stokely Carmichael, o futuro primeiro-ministro honorário do Black Panthers.

Na década de 1960, ela inicia uma temporada em que somente executa músicas políticas e convoca a multidão, em shows abertos ao público, para a guerra – e para a violência, caso  fosse necessário. Acreditava que os afroamericanos poderiam, através da luta armada, formar um Estado separado: “Eu nunca fui a favor da não-violência. Nunca fui não violenta. Achava que deveríamos conquistar nossos direitos por todos os meios necessários. […] Era arrebatador participar daquele movimento naquela época porque eu era necessária. Eu podia cantar para ajudar meu povo e isso se tornou o principal esteio de minha vida. Nem o piano clássico, nem a música clássica, nem mesmo a música popular, mas a música dos direitos civis”, afirmou Nina. Neste mesmo período, transformou a peça inacabada To be Young, Gifted and Black, de Lorraine Hansberry, em um hino entre os negros americanos.

Simone gravou canções como Strange Fruit, de Billie Holiday, que fala sobre o linchamento de homens negros no sul. Cantou o poema Images, de William Waring Cuney, sobre a falta do senso de orgulho que viu entre as mulheres afroamericanas. Ela também foi vítima do machismo e sofreu violência familiar: seu marido a espancava frequentemente. Escreveu Four Women, uma canção sobre quatro estereótipos de mulheres com diferentes histórias de vida, algumas mais sofridas do que outras, mas que não tiveram voz. Sem deixar de mencionar a aclamada Ain’t Go No/I Got Life  que é um símbolo de luta, de resistência. Aqui, Nina está sem casa, sem sapato, sem dinheiro, mas tem o seu cabelo, a sua pele, e tem a si mesma.

A artista experienciou a ascensão do movimento negro, mas também a persistência do racismo e da opressão sobre as mulheres negras nos Estados Unidos das décadas de 1970 e 80. Muitos de seus amigos, como Langston Hughes e Lorraine Hansberry, expoentes da cultura negra norte-americana, haviam morrido. Pessoalmente, a radicalização política havia trazido represálias por parte das gravadoras, abandono de certos públicos, a ruína financeira e o isolamento.

Nina Simone deixou os Estados Unidos em 1970. Atravessou um longo hiato em Barbados, Libéria, Suécia e Holanda, para finalmente, em 1992 estabelecer-se na França, onde onze anos depois veio a falecer.

Desde seu primeiro álbum em 1958 até seu último show no Metropolitan, Nova York em 1997, Nina Simone lançou dezenove álbuns de estúdio e catorze ao vivo em trinta e nove conturbados anos de carreira. Influenciou gente de todo espectro musical: de Bono Vox a John Lennon, de Kanye West a Antony and the Johnsons, passando por Christina Aguilera, Lauryn Hill e Alicia Keys.

Mulheres que revolucionaram: Nina Simone

 “É um sentimento. Liberdade é apenas um sentimento. É como tentar explicar para alguém como é estar apaixonado. Como você vai explicar isso para alguém que nunca sentiu? Você não consegue. Mas você sabe quando acontece. Houve algumas vezes no palco em que eu realmente me senti livre. E isso é uma coisa incrível. É realmente incrível. Eu te digo o que liberdade significa para mim: nenhum medo! Realmente nenhum medo. Se eu pudesse ter isso por metade da minha vida… É algo que realmente se sente. Como um novo jeito de enxergar”.

Nina Simone, 1972.

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